Vivemos tempos em que o mundo inteiro voltou seus olhos para pandemias como a da Covid-19. No entanto, silenciosamente, outra ameaça cresce de forma constante: a obesidade. Embora não receba a mesma atenção midiática, seus impactos são profundos. E o mais alarmante: ela continua a se espalhar em ritmo acelerado, afetando todas as idades, classes sociais e regiões do planeta.
Uma ameaça que não para de crescer
Nas últimas décadas, os índices de obesidade aumentaram drasticamente. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), o número de pessoas com excesso de peso quase triplicou desde 1975. Em 2022, mais de 1 bilhão de pessoas no mundo já estavam acima do peso, sendo que, dessas, mais de 650 milhões eram obesas.
Ou seja, não se trata de uma questão estética. Trata-se de uma questão de saúde pública global. Além disso, o avanço da obesidade pressiona sistemas de saúde, aumenta os custos com tratamentos e compromete a qualidade de vida de milhões de pessoas.
O que está por trás do problema?
Para entender o crescimento da obesidade, é preciso observar vários fatores. Em primeiro lugar, a alimentação mudou radicalmente. O consumo de alimentos ultraprocessados disparou. Eles são práticos, baratos e saborosos, mas também extremamente calóricos, pobres em nutrientes e cheios de aditivos.
Ao mesmo tempo, o sedentarismo também cresceu. A vida moderna exige pouco esforço físico. Com rotinas cada vez mais centradas em telas e tecnologia, o corpo se movimenta menos. Crianças brincam menos nas ruas. Adultos passam horas sentados em escritórios. E os idosos, muitas vezes, tornam-se ainda mais inativos.
Outro fator importante é o aspecto emocional. A comida passou a ocupar um lugar de conforto, refúgio e compensação. Em momentos de estresse, ansiedade ou tristeza, muitos recorrem ao alimento como uma forma de aliviar a dor. Isso, claro, agrava o problema.
Obesidade e saúde: uma relação perigosa
A obesidade não é apenas um número na balança. Ela está diretamente relacionada ao aumento de várias doenças crônicas. Entre elas, destacam-se:
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Diabetes tipo 2
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Hipertensão arterial
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Doenças cardiovasculares
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Apneia do sono
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Certos tipos de câncer
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Doenças osteoarticulares
Além disso, pessoas com obesidade tendem a ter mais dificuldades respiratórias, menor mobilidade e maior risco de complicações em casos de infecções. A pandemia de Covid-19, inclusive, evidenciou isso. Indivíduos obesos apresentaram taxas mais altas de hospitalização, internação em UTI e mortalidade.
Impacto psicológico e social
Mas os efeitos da obesidade vão além do físico. O impacto emocional e social também é significativo. Pessoas obesas, muitas vezes, enfrentam preconceito, exclusão e estigmatização. Isso pode gerar baixa autoestima, ansiedade e depressão. Em muitos casos, cria-se um ciclo difícil de quebrar: o indivíduo sofre, come mais para aliviar a dor, engorda ainda mais e sofre novamente.
Essa realidade atinge, inclusive, crianças e adolescentes. O bullying escolar é um reflexo claro disso. Muitos jovens em idade escolar relatam episódios de humilhação por conta do peso. Isso afeta o desempenho acadêmico, a socialização e o desenvolvimento emocional.
A obesidade infantil: um alerta vermelho
A obesidade em crianças e adolescentes merece atenção especial. Afinal, crianças obesas têm grandes chances de se tornarem adultos obesos. E quanto mais cedo o excesso de peso se instala, mais difícil é revertê-lo.
Atualmente, quase 340 milhões de crianças e adolescentes entre 5 e 19 anos estão com excesso de peso ou obesidade, segundo a OMS. Esse número é alarmante. Ele reflete uma combinação de fatores: má alimentação, falta de atividade física, exposição excessiva a telas e ambientes familiares pouco saudáveis.
Além disso, o marketing infantil tem um papel determinante. Produtos com alto teor de açúcar, gordura e sal são amplamente promovidos para crianças. Personagens coloridos, brindes e publicidade estratégica tornam esses alimentos ainda mais atrativos.
Obesidade e desigualdade social
Outro ponto que precisa ser considerado é a relação entre obesidade e desigualdade. Em muitos países, especialmente em regiões mais pobres, alimentos saudáveis são caros e pouco acessíveis. Já os ultraprocessados são baratos e fáceis de encontrar.
Nesse cenário, famílias com menos recursos acabam se alimentando de forma inadequada. E não por escolha, mas por necessidade. Além disso, essas mesmas famílias enfrentam mais dificuldades para praticar atividades físicas, já que moram em locais sem áreas verdes, parques ou segurança.
Portanto, combater a obesidade também passa por combater a desigualdade. É preciso garantir que todos tenham acesso a alimentos de qualidade, educação nutricional e espaços seguros para se exercitar.
A influência da indústria alimentícia
A indústria de alimentos tem um papel controverso nesse cenário. Por um lado, ela movimenta a economia, gera empregos e abastece o mercado. Por outro, é responsável por promover produtos que, em excesso, fazem mal à saúde.
Muitas empresas investem pesado em publicidade, especialmente para os mais jovens. Produtos ultraprocessados, ricos em açúcar, gordura e sódio, são apresentados como “divertidos”, “práticos” e “irresistíveis”. Enquanto isso, os alimentos in natura ou minimamente processados são deixados em segundo plano.
Além disso, rótulos confusos, informações nutricionais pouco claras e estratégias de marketing enganosas dificultam a escolha consciente do consumidor. Por isso, regulamentar a indústria e garantir mais transparência são medidas urgentes.
O papel da educação nutricional
Embora muitas causas estejam fora do controle individual, a educação alimentar continua sendo uma ferramenta poderosa. Ensinar desde cedo o valor de uma alimentação equilibrada pode fazer diferença.
Nesse sentido, as escolas têm papel fundamental. Refeições escolares saudáveis, hortas comunitárias e aulas sobre alimentação ajudam a criar uma cultura de saúde. Ao mesmo tempo, é preciso incluir as famílias nesse processo. A criança que aprende na escola, mas encontra em casa o oposto, tende a se confundir.
Além disso, campanhas públicas bem direcionadas também podem informar e engajar. Afinal, quando o conhecimento chega de forma acessível e prática, as chances de mudança aumentam.
A importância do ambiente
Outro aspecto essencial é o ambiente em que vivemos. Bairros com praças, ciclovias e academias públicas incentivam o movimento. Por outro lado, cidades mal planejadas, com trânsito caótico e falta de segurança, desestimulam qualquer tentativa de ser ativo.
Portanto, políticas urbanas também influenciam diretamente na saúde da população. Investir em espaços públicos de qualidade, acessíveis e seguros é investir em prevenção. E prevenir é sempre mais eficiente e barato do que remediar.
A atuação dos profissionais de saúde
Médicos, nutricionistas, psicólogos e educadores físicos formam a linha de frente no combate à obesidade. Mas seu trabalho vai além da prescrição de dietas ou exercícios. Eles precisam compreender o contexto social, emocional e psicológico de cada paciente.
Além disso, o atendimento deve ser livre de julgamentos. O preconceito dentro dos próprios consultórios é uma realidade pouco falada, mas muito presente. Para que o tratamento funcione, o paciente precisa ser acolhido, ouvido e respeitado.
É por isso que a formação desses profissionais deve incluir, além da técnica, empatia e compreensão. Lidar com obesidade é, antes de tudo, lidar com pessoas.
Tecnologias e novas abordagens
Felizmente, a tecnologia também tem sido uma aliada. Aplicativos de monitoramento alimentar, relógios que contam passos, plataformas de treino online e consultas virtuais ajudam a tornar o processo mais acessível.
Além disso, novas abordagens terapêuticas estão sendo testadas. Cirurgias bariátricas, medicamentos para controle do apetite e tratamentos comportamentais integrados têm se mostrado eficazes, especialmente em casos mais graves.
Contudo, é importante lembrar: não existe fórmula mágica. O combate à obesidade é um caminho que exige esforço contínuo, apoio e, acima de tudo, respeito à individualidade de cada pessoa.
Caminhos possíveis para um futuro mais saudável
Apesar da gravidade do cenário, ainda há tempo de mudar. No entanto, essa mudança exige esforço coletivo. Governos, empresas, escolas, profissionais de saúde e sociedade civil precisam atuar juntos.
Algumas ações urgentes incluem:
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Regulamentar a publicidade de alimentos ultraprocessados
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Incentivar o consumo de alimentos frescos e locais
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Criar espaços públicos que incentivem o movimento
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Ampliar o acesso à educação alimentar nas escolas
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Garantir atendimento humanizado no SUS e na rede privada
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Promover campanhas de conscientização nacional
Além disso, cada pessoa pode fazer sua parte. Pequenas mudanças no dia a dia como cozinhar mais em casa, andar mais a pé, dormir melhor e buscar apoio profissional já representam um passo importante.
A obesidade é, sem dúvida, uma pandemia silenciosa. Seu crescimento constante, seus impactos profundos e sua presença global exigem atenção urgente. E, ao contrário do que muitos pensam, ela não é resultado de falta de força de vontade. É o reflexo de um sistema que precisa ser repensado.
Portanto, falar sobre obesidade é, na verdade, falar sobre saúde, educação, urbanismo, economia e justiça social. É reconhecer que o problema é coletivo e, por isso, sua solução também deve ser.
Enquanto o mundo se recupera de uma pandemia viral, não podemos ignorar a pandemia invisível que continua avançando. Lutar contra a obesidade é lutar por qualidade de vida, dignidade e futuro.